Onde morar em Paris?

Onde morar em Paris. Foto Pixabay
Onde morar em Paris. Foto Pixabay

Onde morar em Paris? Volta e meia esta pergunta aparece nas conversas com amigos que querem vir se instalar por aqui. Não é surpresa se eu disser que não há uma unica resposta a esta questão, mas abaixo eu proponho a vocês alguns elementos de reflexão.

Qual é o seu orçamento?

Muita gente gostaria de viver em um daqueles lindos apartamentos face à Torre Eiffel, mas logo se desilude quando vê que os preços dos aluguéis nem sempre cabem no bolso.

Uma das primeiras perguntas que você deve se fazer é: qual é o meu orçamento ?
Saiba que as agências imobiliárias pedirão que sua renda seja 3 x superior ao valor do aluguel. Se você só puder dedicar 700 € por mês para pagar pela moradia, será preciso redefinir suas prioridades / exigências com relação à localização do bem.

Um raciocínio simples é o seguinte : quanto mais próximo do centro de Paris e dos arrondissements mais “chics”, maior será o valor do aluguel.

Se ainda assim quiser morar em determinadas áreas, terá que fazer concessões em outros critérios, como o tamanho do apartamento. Isto porque em alguns casos, ele poderá se resumir a um quarto no quinto andar sem elevador, com banheiro nas áreas comuns para dividir com outros vizinhos.

N.B. Quartos assim existem, podendo ter apenas 9 metros quadrados, e são geralmente chamados de “chambre de bonne“.

Morar sozinho (a) ou dividir aluguel?

Morar em um quarto de 9 m² pode não ser exatamente o que você imaginou para sua aventura em Paris. E é aí que entra uma outra opção: dividir aluguel com outras pessoas.

Por um lado, isto pode gerar receio, já que provavelmente vai compartilhar sua intimidade com estranhos. Por outro, pode ser a oportunidade de conhecer gente nova, ter com quem conversar, ter acesso a um espaço maior (sala e cozinha são espaços comuns) e… poder morar em Paris sem ter que vender um rim, pois o aluguel é dividido.

Esta também pode ser uma alternativa para quem quer poder economizar um pouquinho de dinheiro no fim do mês, para usá-lo em outros projetos como viagens pela Europa, cursos, etc.

Este arrondissement é seguro?

Preconceito?

A reputação dos diversos arrondissements (ou distritos) de Paris não é a mesma. Quando se fala do 6° arrondissement, algumas pessoas se imaginam caminhando ali pelo Jardin du Luxembourg, felizes da vida. Quando se fala de arrondissements do norte da cidade (18°, por exemplo), alguns já sentem uma sensação de insegurança e se imaginam andando pelas ruas segurando suas bolsas e guardando seus telefones.

Não podemos nos deixar levar por estereótipos. Paris é uma cidade com muitas faces e não podemos negar que se vê o policiamento nas áreas com maior frequentação de turistas. Quanto aos arrondissements do norte, é bom lembrar que são muito grandes em termos de superficie e que há então lugares mais ou menos “seguros”. Se nos concentrarmos no 18°, há partes que são consideradas mais “bobo” ou burguesas (como a proximidade des Buttes Montmartre) e outras que às vezes recebem a etiqueta de “guetos” (como Barbès ou La goutte d’or – aceito comentários de quem conhece melhor o lugar).

Vale lembrar que muitas pessoas vivem na região norte por escolha própria, por pensar que ali você tem uma vida mais autêntica e mais animada. Os bairros do norte também são conhecidos por ter uma maior diversidade cultural.

Uma amiga brasileira, das redes sociais, me disse que mora no 18° com o marido e não se priva de sua liberdade de ir e vir, mesmo à noite e sozinha. Exemplo que nos mostra que nem tudo é 8 ou 80.

Ou realidade ?

O fato é que existem muitos relatos de pessoas que se sentem inseguras em alguns arrondissements.

Várias pessoas reclamam que, por exemplo no 19° et no 10°, já caminharam por ruas onde se viam seringas jogadas pelas calçadas. Isto porque o número de usuários de drogas é alto e eles tendem a se concentrar em certos pontos da capital, como às proximidades da cité Reverdy (19°) ou a rue de Maubeuge (10°). Apenas nesta última rua, foram coletadas 1.078 seringas usadas, entre abril e setembro de 2016, segundo o jornal Europe 1 (link abaixo).

A questão das drogas é também a realidade da Rue Ambroise-Paré, no 10° arrondissement. Não é à toa que foi ali que escolheram implantar a primeira sala parisiense para o consumo de drogas, chamada GAIA.

E o que dizer das grande quantidade de mulheres que são assediadas quando passam, por exemplo, por certos lugares do 18°, do 10°? Pode acontecer até em cafés e restaurantes! Muitas dizem que preferem não frequentar estes lugares sozinhas, pois são alvos de comentários rebaixantes e às vezes são até seguidas por homens desocupados que vagam por ali.

Pra completar sobre a questão da segurança, muitos amigos brasileiros ressaltam que nenhum lugar por aqui pode ser mais perigoso do que o quotidiano que vivem no Brasil. O Jornal Extra, por exemplo, agora em agosto decidiu usar o termo “guerra no Rio” para falar dos fatos anormais que têm entristecido o Brasil e o mundo.

Sobre este último ponto, deixo cada um fazer suas próprias reflexões.

Estatisticas sobre a delinqüencia em Paris

Pra se ter uma idéia da violência em Paris, nada melhor que alguns números. Se você acha isso chato, pule para o próximo parágrafo 🙂

O site Evous publicou em janeiro de 2017 um artigo sobre as estatisticas da delinqüência em Paris (link abaixo): os bairros mais violentos sobre o ano de 2015. Veja aqui um resumo.

O arrondissement onde houve o maior número de violência “crapulosa” ou violência gratuita, o que inclui roubos com violência (679 em 2015) foi… o 1er arrondissement. Lembrando que é onde se encontram vários pontos turísticos. Esse número é alarmante porque mostra uma média de 40 atos por 1000 habitantes, sendo que a média regional é de 5 atos para cada 1000 habitantes.

E justamente, quais são os arrondissements mais tranquilos? O artigo cita o 7e, 14e, 15e e 20e que registraram apenas 4 atos violentos para cada 1000 habitantes, o que está abaixo da média regional.

Infelizmente o 18e e o 19e arrondissements são “bel et bien” os que vivenciam o maior número de atos de violência. Apresentando os números brutos (sem levar em consideração o número de habitantes), foram 1.358 et 1.238 atos respectivamente.

Mas não pense que os arrondissements ricos são poupados. O 8e, por exemplo, teve em 2015 um número de atos violentos 4 x superior à média regional, com 20 para cada 1000 habitantes.

Morar em Paris ou banlieue?

Os apartamentos em Paris são geralmente pequenos, muitas vezes antigos (e “vétustes”?) e caros com relação ao resto do país e até mesmo da região Île de France.

Então muitos se perguntam: mas por que cargas d’água (estou feliz por poder usar esta expressão 🙂 ) as pessoas insistem em morar em Paris? Basta você fazer alguns quilômetros e encontrará apartamentos maiores e mais baratos nos subúrbios (a famosa banlieue), às vezes com direito a jardim privativo e maior contato com a natureza.

Não existe uma única e valida resposta sobre o fato de algumas pessoas preferirem viver em Paris. A proximidade com os locais de trabalho / estudos e consequentemente um menor tempo de trajeto ? O acesso mais fácil à vida cultural ? A imagem de alguém mais burguês / elitista ?

O fato é que o mesmo que dissemos sobre os arrondissements é válido para a banlieue: nem todos se valem. Nada melhor que uma boa pesquisa a respeito dos lugares que te interessam pra saber se se adaptam ao seu projeto de vida.

Há mesmo quem escolha viver em outras regiões vizinhas à Île de France e vir trabalhar em Paris todos os dias. Tenho uma colega de trabalho que mora na Normandie e vem de trem todos os dias pra Paris. Assim ela beneficia dos melhores salários parisienses (em comparação com os normands) e pôde mesmo construir sua casa com piscina <3

Cuidado ao calcular o tempo nos transportes

Um amigo um dia me disse: “vou morar em Paris e o aluguel não é tão caro assim!”. Depois de verificar, vimos que oferta de aluguel era real, mas o apartamento ficava simplesmente a 100 Km de Paris e a 10 Km de uma estação de trem.

Antes de pular de cabeça, pense no tempo que vai levar pra fazer o trajeto da sua casa até o seu local de trabalho ou estudos. Quantas horas por dia te parecem aceitáveis pra passar dentro dos transportes?
A colega que citei acima, que mora na Normandie, leva mais de 3 horas e meia por dia nos transportes. O que você acha?

Eu ainda poderia falar muito deste assunto, mas acho que as idéias listadas acima podem te ajudar a iniciar uma reflexão sobre onde viverá ou viveria em Paris e região.

Me deixe aqui seus comentários e não se esqueça de compartilhar com aqueles seus amigos que estão planejando vir viver em Paris!

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Saiba mais

Artigo do site Evous : Délinquance à Paris : Les quartiers les plus violents https://www.evous.fr/la-delinquance-a-Paris-1119181.html

Artigo da Europe 1 : Paris : 60% de seringues usagées en moins aux abords de la “salle de shoot” http://www.europe1.fr/societe/paris-60-de-seringues-usagees-en-moins-aux-abords-de-la-salle-de-shoot-3008945

Sobre Angélica Galvão 35 artigos
Sou uma brasileira que vive na França há 10 anos e que tem sede de novos conhecimentos e novas experiências, com o intuito de compartilhá-los. Mamãe de dois lindos garotos, companheira, filha, irmã, amiga, engenheira em informática e sistemas de informação (TI), blogger nas horas vagas :-)

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4 Comentários

  1. Depois de toda a leitura, acho melhor ficar no Brasil mesmo, na região metropolitana de uma capital no planalto central onde posso, com alguns riscos, claro, ir à bancos, bosques, centros comerciais, visitar parentes pedalando. E se você é daqueles que gostam de praticar caminhadas pode ir ao trabalho a pé, tomando como parâmetro de distância, 10 a 20 quilômetros. rs Ah, quero ir à Paris, mas apenas de passagem, de preferência hospedando em casa de parentes! rs

    • Não existe o paraiso na terra, não é mesmo? 🙂 Sei que não é o caso do Sr, mas muita gente idealiza a vida na Franca (e no exterior de maneira geral), mas o fato é que ha problemas e dificuldades em qualquer lugar… e é sempre bom se questionar sobre certos elementos. Vem passear e ver com os proprios olhos, depois o Sr me fala 🙂

  2. Muito esclarecedor o seu artigo. Muito obrigada. Em relação a alugar casa – pretendo saber se as agências complicam o processo, se são acessíveis, o que é necessário para alugar casa. O que aconselha alugar através de privados ou agências. Qual a melhor forma?

    • Marta, alugar casa é um ponto critico aqui (desculpe a falta de acentos). As agências são muito burocraticas e exigem que você ja tenha emprego, que não esteja mais em periodo de experiência, que seu salario seja 3x superior ao valor do aluguel… Pode ser mais simples alugar diretamente com o proprietario, mas cuidado com golpes. Lembre-se que quando a esmola for demais, o santo desconfia. Dê uma olhada em sites como o pap.fr (para anuncios diretamente dos proprietarios) ou ainda seloger.com (anuncions de agências). Boa sorte!

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